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Era o título de um filme que circulou há anos…
É verdade se pensarmos que Deus desejou para os homens um projecto de Amor que tem de ser realizado por homens.
E é verdade se meditarmos nas vidas de alguns santos em que não sabemos descobrir até onde vai a energia de homem e onde começa a Graça de Deus… Onde termina a graça divina e começa o esforço que ultrapassa o homem comum.
Podemos pensar em Paulo, Francisco de Assis, Francisco Xavier e tantos e tantos que deixaram a sua marca na história e cuja obra perdura tempo fora.
É o que, sem exagero, ao rever a vida do fundador do CNE, ao localizá-lo na sua época, ao descobrir – é a palavra – as iniciativas e soluções por ele tomadas, muitas vezes adiantando-se no tempo.
O Homem
Era filho único, educado por sua mãe, por falecimento do pai quando ele tinha sete anos.
Este facto marcaria a sua personalidade íntima.
“Na intimidade o seu temperamento ressentia-se bastante de ter sido filho único e objectivo de carinho da sua mãe”.
Mas praticamente a sua infância e juventude foram consagradas à sua preparação para o sacerdócio, cumprindo pontualmente e com brilhantismo os vários cursos até à formatura em Teologia, acumulando, bem cedo, as funções de professorado e direcção espiritual do Seminário.
“No zelo pela casa de Deus e da Igreja, no amor pelas almas, não podia ser excedido”.
Isto mesmo fica atestado, em especial, nas duas dioceses de que foi único responsável: Guarda e Braga.
Onde, para além da competência humana adquirida nas escolas, ia D. Manuel buscar tanta energia e tamanha lucidez?
“Nunca recebia ninguém para tratar de assuntos, ou mesmo só para cumprimentar, sem passar antes e depois pela Capela, a pedir a Luz de Deus e a dar-lhe Graças.”
Sendo assim para os assuntos mais simples, tanto mais terá sido quando enfrentou os maiores desafios e privações.
A Época
O Catolicismo sofreu em Portugal grave ofensiva, depois do advento do liberalismo e mais especialmente nos primeiros anos da República.
Desde a expulsão das ordens religiosas e ao roubo dos seus bens, aos ataques ao clero… relembre-se, por exemplo, o anedotário anticlerical num povo religioso e que só muito recentemente desapareceu, a “Lei da Separação”, ao ataque aos lugares de culto, a tentativa de aliciamento dos padres, a prisão e desterro dos Bispos, no objectivo declarado de “extinguir o Catolicismo em duas gerações”.
Relembramos, muito resumidamente, alguns dos artigos desta lei:
Art.23º: …As “corporações encarregadas do culto” eram obrigadas a prestar contas anualmente, com orçamentos, inventários, receitas e despesas de cada ano e comparação com os três anos anteriores.
Art. 30º: Os edifícios ou templos a construir ou adquirir reverteriam para o Estado ao fim de noventa e nove anos.
Art. 55º: Proibidos os actos de culto externo (“fora das igrejas”), incluindo os funerais, sob pena de “crime de desobediência”.
Art. 62º: São expropriadas todas as catedrais, igrejas e capelas, bens imobiliários e mobiliários, sendo considerados pertença e propriedade do Estado, sendo arrolados e inventariados todos os seus bens…
Art.. 146º: Previa as penalidades aos “ministros da religião” por falta às obrigações ou desobediência a esta Lei.
Art. 184º: O Estado intervinha no funcionamento dos Seminários, pela nomeação e aprovação dos professores e empregados e aprovação dos livros de texto.
Não se tratando de letra de retórica, por esta Lei, o Bispo de Beja foi suspenso e, seguidamente, destituído; o Bispo do Porto foi destituído e desterrado da sua diocese; os Bispos da Guarda, Patriarca de Lisboa, Governadores do Bispado do Porto e de Beja, Bispos do Algarve, Viseu, Lamego, Bragança e Arcebispo de Évora, foram desterrados por dois anos dos respectivos distritos.
E, note-se, que isto ocorreu no curto espaço entre 21 de Outubro de 1910 e 30 de Março de 1912.
Lembramos ainda, e como simples exemplo, as perseguições sofridas pelos videntes de Fátima e a destruição, à bomba, da primeira capelinha das Aparições.
Esses “tempos terão passado totalmente, se atentarmos que Afonso Costa – caricaturado como carrasco da Igreja Católica, já em 1911 – tem hoje uma Avenida com o seu nome e houve quem protestasse com o nome do Cardeal Cerejeira dado a uma artéria de Lisboa, aliás bem modesta.
A obra
Na Guarda, as linhas de uma actuação
Na Guarda, as linhas de uma actuação
Podemos dividir a sua obra em duas fases, a da reconstrução e a da resistência e em ambas estão presentes as mesmas preocupações; a formação do Clero, difusão da catequese, organismos percursores da Acção Católica e a imprensa, ao tempo o único meio de comunicação social de difusão prática.
Assim, reformou os seminários nas suas vertentes de pessoal, estudos e disciplina, incluindo a cadeira de Sociologia no longínquo ano de 1905… recuperou instalações e construiu um novo seminário…Mas tudo viria a ser expropriado do tempo da República.
Para a catequese fomentou Associações de Doutrina Cristã, na maioria das paróquias, e organizou, em 1905, o primeiro Congresso Catequistico que se realizou em Portugal.
Fundou o Círculo Católico de Operários.
A imprensa tomou forma com o jornal “A Guarda”, quinzenal e depois semanal, apoiado na Empresa Veritas (tipografia e livraria católica).
A publicação de “A Guarda” sofreu as vicissitudes de perseguição, mudando de tipografia quando as suas instalações eram assaltadas ou interditas pela polícia.
Na secura das palavras pode dizer-se que foi processado por duas vezes, preso três e desterrado quatro; fica por dizer a força da sua voz frente aos perseguidores desmantelando de “inimigo da república”, a energia que transmitia aos mais fracos, o exemplo que apontava a todos.Em Braga, entre o Bom Jesus e o Sameiro
O escasso tempo do governo do General Pimenta de Castro, permitiu à Santa Sé a nomeação dos Bispos para as Dioceses que haviam vagado…
Assim, D. Manuel foi elevado à Mitra Bracarense em 1 de Outubro de 1914, sendo a 14 de Março de 1915 a sua entrada na mais velha catedral portuguesa…. Chamando ao Bom Jesus e ao Sameiro, “o sol e a lua da sua existência”… Ou mais simplesmente, reconhecia que o Crucificado e sua Mãe eram a fonte da sua Energia e da sua Fé.
Novamente abordou as tarefas de reconstrução da catequese, da animação da juventude (associações de “Juventude Católica”, Grupo Arnaldo Lamas, “Grupos de Estudantes”, o nosso CNE, …) e dos adultos (União Católica, Centro Católico).
Promoveu a construção de novo seminário, melhorou a preparação dos seminaristas, colaborou nos exercícios espirituais anuais para o Clero (hoje dir-se-ia “reciclagem”), enquanto organizava os leigos.
Um deles foi o Dr. Lino Neto que, eleito Deputado pelo Centro Católico, defendia no Parlamento, sob sua orientação, os interesses religiosos, como foi o caso da legalização do Corpo Nacional de Scouts.
É ainda no seu tempo que é criada a Diocese de Vila Real.
A imprensa deve-lhe os títulos de “Acção Católica”, iniciado em 1915 com funções de órgão oficial da Arquidiocese; o semanário “Actualidades”, que fundou, assim como outros semanários em várias vilas e cidades; e o “Diário do Minho”, adquirido em 1925.
Para a publicação do diário de circulação nacional, “Novidades” contribuiu com a sua influência, apoio financeiro e a experiência da sua equipa do jornal “A Guarda”. Este jornal, suspenso há cerca de quinze anos, era-nos bastante querido, pela sua página Escutista que era publicada todas as quartas-feiras.
O Congresso Eucarístico de Roma
Várias vezes foi referido que foi aí, em 1922, que nasceu o Escutismo Católico Português, ao presenciar um imponente desfile de Escuteiros.
É verdade… Mas foi no mesmo instante que terá tido a inspiração de promover, já a partir do ano seguinte, uma série de dez Congressos Arquidiocesanos e Nacionais, em que participaram os pensadores católicos mais notáveis e reunia multidões de centenas de milhares de pessoas, número que é, hoje, ainda mais impressionante.
O Escutismo Católico, “dêem-me uma farda”
Não foi apenas bênção de circunstância a que D. Manuel nos dedicou… Para este empreendimento dispôs da juventude e extraordinário dinamismo do Dr. António Avelino Gonçalves – mais tarde, Monsenhor – e de um número de bons Homens católicos, que ele próprio escolheu.
Acompanhou a obra a nascente, presidiu aos Conselhos Nacionais, esteve com os rapazes em todos os Acampamentos Nacionais.
Foi o Homem solidário que, ao constar-se que os Escuteiros iam ser presos, disse “dêem-me uma farda, que eu também quero ser preso”.
O último Nacional
Iniciados em 1926, no campo histórico de Aljubarrota, os Acampamentos Nacionais fora a mais forte actividade da Associação, promovendo uma salutar competição técnica, fortalecendo os laços de Amizade entre os membros da família Escutista.
Em Agosto de 1932 teve lugar o IV Nacional, no Parque da Ponte, em Braga… E a que D. Manuel não compareceu: subiram os Escuteiros ao monte do Sameiro onde repousava, muito doente, mas com energia para dizer: “Queridos rapazes, metade do meu coração é vosso. Levai-o convosco”.
Uma vida inteira consumida ao Serviço de Deus e da Igreja e os nove anos de Escutismo Católico representam, para ele, tão generosa parcela.
Poucas semanas depois repousava no Eterno Acampamento, na glória de Deus e, certamente, pedindo por nós.
Dados pessoais:
- Nascimento a 22/3/1861 em S. Miguel de Poiares, Peso da Régua
- Baptismo a 30/3/1861 na mesma freguesia
- Falecimento em 28/9/1932, em Braga
Cronologia
- Primeiros Estudos no Colégio de Lamego
- Seminário (Preparatório) concluído em Braga, em 1879
- Seminário (teologia) concluído em 1882
- Transito para a nova Diocese de Lamego
- Subdiácono, professor no Colégio P. António Pereira e de Teologia no Seminário, durante três anos.
- Diácono em 21/5/1883
- Presbítero em 21/5/1883
- Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, matrícula em 1885/86 e conclusão da formatura em 1890
- Professor do Seminário de Viseu, acumulando a direcção espiritual do Seminário e do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em 1890
- Arcebispo de Mitilene, Lisboa, em 22/6/1899
- Sagrado Bispo, na Sé de Viseu, em 15/8/1899
- Bispo da Guarda em 1/4/1903
- Arcebispo de Braga em 1/10/1914
Principais Iniciativas
Em Viseu
§ Professor e director espiritual do Seminário Diocesano, em 1890
§ Reorganização da catequese, Conferências de S. Vicente de Paulo e Filhas e Filhos de Maria, na freguesia da Sé
Em Lisboa
§ Arcebispo de Mitilene e Vigário Geral do Patriarcado em 1899
Na Guarda
§ Associações de Doutrina Cristã
§ Congresso X Catequismo
§ Reforma dos Seminários e construção de um novo
§ Exercícios espirituais para o Clero
§ Empresa Veritas: tipografia e livraria católica
§ Jornal “A Guarda”
§ Círculo Católico de Operários
§ Ensino de Sociologia, no Seminário
Em Braga
§ Construção do Seminário e Paço Episcopal
§ “Acção Católica” – órgão oficial da Arquidiocese, em 1915
§ Sínodo Diocesano em Julho de 1918
§ Restauração do rito Bracarense em 1/1/1914
§ Fundação do semanário “Actualidades”
§ Nova Diocese de Vila Real em 25/7/1922
§ Aquisição do “Diário do Minho” em 1929
§ Contribuição para o Diário “Novidades”, em Lisboa
§ Congresso Eucarístico Arquidiocesano, Braga, em Maio de 1923
§ Congresso Eucarístico Nacional, Braga, em Julho de 1924
§ Congresso Eucarístico Arquidiocesano, Póvoa de Varzim, em Julho de 1925
§ Congresso Mariano Nacional, Braga, em Maio de 1926
§ Congresso Litúrgico em Junho de 1926
§ Congresso Eucarístico Nacional, Guimarães, em Junho de 1927
§ Congresso Eucarístico Arquidiocesano, Viana do Castelo, em 1929
§ Congresso Nacional do Apostolado da Oração, Braga, em Julho de 1930
§ Congresso Nacional Missionário, Barcelos, em Setembro de 1931
§ Congresso Catequístico Nacional, Braga, em Junho de 1932


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